Andresa Espindula
Não me ame assim

Sol Em Dia Nublado

Sol Em Dia Nublado

Parte 4 de 4 – FINAL

Olhei para a Nanda que estava tão estátua como eu. Agradeci pelas palavras assim como faria caso ouvisse algo parecido da Nanda. Que, por sua vez me deu um abraço na hora que eu estava indo embora e sussurrou no meu ouvido.

“Vou tentar descobrir algumas coisas… Não crie expectativas agora. Espere mais um pouco, não quero que você se machuque mais…”

Eu sei que a Nanda só quer meu bem,  ela sempre foi minha melhor amiga. Era bom ter ela por perto pensando com tranquilidade enquanto eu era esse turbilhão de pensamentos e emoções. Sai da casa da Nanda, mas deixei o único pedacinho inteiro do meu coração lá. Deixei também meus melhores pensamentos. Deixei, meus pedaços inteiros com a minha Lais, e sai, sai para recuperar o resto de mim. Precisava enfrentar, ser forte, precisava tomar decisões. Primeira coisa que fiz, foi ligar para o Kevin, ele atendeu no segundo toque, a voz estava cansada e muito abalada, depois de chorarmos juntos por um tempo no telefone e ficarmos em silencio, marcamos de nos encontrar em casa, em vinte minutos, liguei para o Arthur e ele também ficou de nos encontrar lá. O Arthur tinha a voz mais calma e segura, acho que ele sempre o mais sensato, o mais cheio e seguro das razoes.  Cheguei em casa, estacionei o carro na vaga de sempre e antes que eu pudesse respirar, as lagrimas voltaram a cair, agora esta casa toda estava vazia, agora seria só eu e meus irmãos aqui, mesmo que eles tragam as meninas e um dia eu traga a Lais para dormir algumas noites aqui, ainda assim, sem meus pais agora, tudo era vazio. Não consegui sair do carro e entrar sozinha em casa, esperei os meninos chegarem, o primeiro a chegar foi o Kevin, desceu do carro, abriu a porta do meu carro e me puxou para um abraço, ficamos abraçados até o Arthur chegar.

Juntos, nós três entramos em casa e quando passamos da porta de entrada, o cheiro de mamãe invadiu a gente, e sentamos no chão, como se fossemos três crianças pequenas, desesperadas e procurando pela mãe. Depois de algum tempo o Arthur foi o primeiro a levantar.

“É difícil e doloroso, mas precisamos ser fortes, somos adultos e precisamos encarar isso de frente. Precisamos procurar uma roupa para enterrar a mamãe, algumas coisas que ela queria que colocássemos com ela, lembram? Precisamos pegar documentos, para fazer a certidão de óbito e toda a burocracia. Vamos dividir ok? Eu queria fazer o velório dela aqui na sala e não na capela mortuária, acho que ela ficaria triste de fizéssemos lá.” – Arthur terminou de falar e me olhou nos olhos esperando minha resposta, mas eu não sabia o que fazer, tão pouco queria decidir, então ele olhou para o Kevin, que se levantou, secou os olhos e concordou com meu irmão.

“Você esta certo, ela será velada aqui em casa, vamos nos dividir. Arthur você resolve toda a parte burocrática, resolve as coisas para o velório acontecer aqui e as coisas com a funerária e hospital. Você Amanda ira escolher a roupa da mamãe, e recolher os pertences que ela queria que colocássemos com ela, depois levara ate a funerária e ajudara com os preparativos. Bem, e eu, eu vou arrumar essa casa, abrir as janelas, preparar uma comida para nós, e algumas coisas para o pessoal que vira, vou avisar a todos, por no jornal e informar a toda a família. Agora eu só preciso que vocês saibam que eu estou aqui para vocês, e eu vou querer vocês comigo para sempre. Somos nos três em tudo agora.” – Ele me estendeu a mão, eu segurei forte e me levantei. Éramos nos três e seriamos sempre. Nos abraçamos e depois cada um saiu para fazer suas coisas. Nos encontramos as cinco da tarde com tudo resolvido, o corpo chegaria na nossa casa em mais ou menos uma hora e então as seis da manhã do outro dia seria o enterro, tudo resolvido com o padre e com o cemitério também. Depois de sentarmo-nos à mesa eu finalmente peguei meu celular e me espantei por ver que havia oito ligações não perdidas da Nanda, e dez ligações de um numero que eu não conhecia. Claro, liguei primeiro para a Nanda.

“Nanda, oi, amiga, desculpa, não vi o celular tocar e nem mexi nele, o que aconteceu? Porque tantas ligações?” – Antes que eu falasse mais alguma coisa, a Nanda me interrompeu.

“Achei que tinha morrido, credo, eu sei que você deve estar ocupada, mas poxa, estamos preocupadas com você, te liguei uma porrada, a Lais também te ligou um monte de vezes, e nada de você atender, quase fomos ai, mas como não sabíamos por onde você andava ficamos aqui aflitas te esperando. Tadinha, a Lais está quase morta de preocupação. Fala com ela aqui.”  – Meu coração sorriu, ela estava preocupada comigo. Estava aflita por mim. O número desconhecido era dela.

“Oi Lais, desculpa por não ter atendido, eu realmente não vi.” – A respiração dela mudou no telefone depois que ela ouviu minha voz, eu juro que mudou, não podia ser só algo da minha cabeça, ou do meu coração imaginando, era real.

“Que bom que você esta bem minha linda, eu estava preocupada. Mas, só de ouvir sua voz já me sinto melhor. Não faca mais isso  ok?! Não suma assim.” –  Ela estava preocupada, estava esperando noticias minhas, eu sei que a Nanda também estava, mas era diferente.

“Desculpa mais uma vez Lais, estava tudo corrido por aqui só agora que conseguimos parar um pouco. O corpo da minha mãe vai chegar em breve, você e a Nanda vem para o velório ne?!”  – Eu queria elas comigo.

“Claro que sim Amanda, estamos saindo de casa em vinte minutos, me espere, daqui a pouco estou ai. E, depois quando tudo isso passar e você estiver melhor, acho que preciso falar com você.” – Sua voz estava insegura, era nítido, ,mas porque? O que ela queria? Será que a Nanda havia falado com ela? Meu coração ficou apertado na mesma hora, mais do que já estava. É obvio que uma monte de coisa começou a passar pela minha cabeça, tão rápido que eu não conseguia assimilar nada.

“Amanda, Amanda, você está ai ainda?”  – Era a voz da Lais me chamando de volta dos meus pensamentos errantes. Ou não tão errantes.

“Desculpa, fiquei curiosa e perdida em pensamentos. Estou aqui sim.” –  Tenho certeza que agora ela foi quem percebeu minha mudança na voz, ela respirou e  depois se despediu. Fiquei esperando ela passar para a Nanda, mas a ligação foi terminada. Desliguei o celular, e fiquei olhando para o nada. Pensando no que ela poderia querer, meu coração queria pensar coisas boas, queria me animar, mas coração não pensa, só sente, e ainda vive confuso. Meu cérebro pensava, a todo vapor, a todo segundo, e só tinha coisas ruins para pensar. Fiquei agoniada e surpresa com o que a Lais disse que não percebi o tempo passar e meia hora depois a Nanda e Lais estavam na porta de casa, mais algum tempo o corpo chegou, e aos poucos os familiares e outros amigos foram chegando também.

“Lais, Lais, eu fiquei muito estranha com o que você disse, podemos conversar agora?” – Eu precisava falar com ela. Pode parecer estranho, mas eu havia entendido muita coisa desde que mamãe partira principalmente que ela estava esperando eu ser feliz, eu encontrar alguém, para poder partir. Eu senti isso, e sem saber explicar, sentia minha mãe comigo, me soprando palavras boas, me dizendo para ir atrás do que eu quero, eu sei que muita gente não ia me entender, mas dentro de mim eu sentia que minha mãe me entendia, que minha mãe me dizia par a ir.

“Lais, vem, vamos dar uma volta.” – Ela pegou na minha mão e percebi quando tocamos as mãos o quanto estávamos com sentimentos diferentes, à mão dela estava gelada, suando frio e a minha estava quente. Ali, eu pedi, eu rezei para que esta fosse nossa única diferença.

“Amanda, eu, eu preciso te dizer uma coisa, o problema é que nem eu sei bem como dizer. Eu vou falar assim, tudo rápido e espero que você entenda, e eu não posso parar de falar ate terminar porque talvez me falte coragem. Não sei, se você e a Nanda conversaram sobre mim, e se sim, possivelmente ela te disse que eu já tive namorados..” – Odiei o começo da conversa, e principalmente  a entonação que ela usou para falar namorados. No entanto quando abri a boca para começar a dizer alguma coisa, ela cobriu meus lábios com os dedos e continuou a sua fala, que parecia ter sido ensaiada o dia todo. O que quer dizer que mesmo que seja algo que eu não queira ouvir, ela pensou em mim o dia todo. Ah! Meu coração! Como ele estava agitado, dando cambalhotas, que bobo ele é. Não sabe o que vai ouvir e está feliz somente com a possibilidade.

“Minha linda, o que eu quero dizer, é que, eu senti algo diferente desde a primeira vez que te vi. E, como eu disse, não sei se você e a Nanda conversaram sobre mim, ou sobre meus outros relacionamentos, mas, além de eu nunca ter me envolvido ou me apaixonado, ou mesmo, eu nunca nem pensei em ter algum relacionamento com uma garota, porem, mesmo que nada disso tenha passado pela minha cabeça, a verdade é que eu nunca amei nenhum dos meus namorados de verdade, nunca amei profundamente, nunca me senti tão nervosa como agora olhando para você.  Eu não consigo explicar bem, eu amava eles, não me entenda mal, nunca trai nenhum deles, eu realmente me envolvia por sentir um carinho, mas não era nada comparado ao que eu sinto quando te vejo, quando penso em você, e principalmente quando eu ouço sua voz, é como se sua voz fosse ligada direto com meu coração.” – Eu estava em estado de choque, nem em meu melhor sonho era tão lindo, como foi agora, nem em meu melhor sonho eu imaginava ela me dizendo essas coisas. Ela era meu melhor sonho, aqui, parada diante de mim, me olhando intrigada, com medo da minha reação, ou com medo dela mesma e dos sentimentos que ela estava sentindo.

“Depois de tudo isso que eu ouvi, eu preciso fazer uma coisa, e se for muito apressado ou se você não querer, me empurra, me bate, me joga longe, porque depois que eu começar não sei se vou conseguir parar…” – Eu respirei mais uma vez, cheguei perto dela, calmamente, coloquei a mão na sua cintura e consegui sentir o corpo dela todo arrepiar, depois olhei seus olhos e vi que eles estavam presos a minha boca, ela estava esperando, ela não iria me empurrar, não iria pedir para eu parar. E isso me deixou muito, muito feliz, num dia, em que era para ser muito triste. E quando, eu finalmente a beijei, ouvi minha mãe dizer. “Muito bem filha, eu te quero feliz, e agora, eu vou partir e me encontrar com teu pai.” – Eu ouvi, juro que ouvi. Depois do que ouvi, meu coração ficou mais leve, o beijo ficou mais intenso e mais apaixonado. Ela segurou meus braços e depois me puxou para mais perto e então, tive certeza de que o coração dela seria para sempre meu, já que o meu, já era dela desde o primeiro dia.

“Antes de a gente voltar para casa, eu preciso dizer que amo você Lais, amo você desde o primeiro dia que te vi, que te conheci, desde o primeiro sorriso que você me deu. Lais, eu quero algo serio com você, quero namorar com você, sair por ai de mãos dadas, conversar, te buscar para dormir aqui comigo nos finais de semana, quero que todo mundo saiba da gente, do que eu sinto.” – Ela ainda estava bem perto de mim, seu rosto ainda estava a milímetros do meu, eu conseguia sentir sua respiração, e num segundo de silencio ouvi seu coração bater.

“Que bom ouvir isso minha linda. Vamos com calma só com relação aos meus pais, mas para nossos amigos e para seus irmãos não vejo problema em contar, a Nanda vai surtar se ela não for a primeira a saber. Mas,  preciso de tempo com meus pais, não sei como vão reagir.” – Essa seria a parte difícil, a parte que poderia estremecer toda uma relação, por mais que ela me amasse, eu sei que pais são sempre muito importantes.

“Lais.. Ah, minha Lais!” – Teríamos tempo para conversar sobre isso, eu não precisaria falar disso agora, ate porque agora, eu só quero beijar a minha menina linda. Depois de mais alguns beijos e suspiros, voltamos para a casa, chamamos a Nanda que de longe olhou para as nossas mãos e sorriu. Depois ficamos assim o resto da noite, abraçadas, conversando com os familiares. Após o enterro precisei ficar um tempo a sós com meus irmãos, e então contei a eles sobre a Lais, eles finalmente sorriram um pouco me abraçaram e assim terminamos o dia. Bem, antes de terminar o  dia, a Lais apareceu lá em casa e perguntou se ela podia dormir só essa noite, porque ela queria conversar comigo, e pelo jeito que suas bochechas ficaram vermelhas e seus braços estavam arrepiados, eu entendi o que ela queria saber.

Amanda & Lais

 

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