Andresa Espindula
Não me ame assim

A primeira vista

A primeira vista

Parte 1

Literalmente, à primeira vista!

Eu estava caminhando como toda manhã, dando a volta no pequeno parque da cidade,  como era rotineiro, eu conhecia todas as pessoas que estavam ali, caminhando, dando comida aos pássaros, as crianças indo para escola, as mães passeando com as crianças e com os cachorros, os fitness correndo, fazendo Cross Fit, ou seja lá o como eles chamam estes exercícios pesados e que deixam eles suando tanto que parecem que saíram do banho e colocaram a roupa sem se secarem. Eu, como sempre estava só caminhando, uma atividade física para não ficar totalmente sedentária, um tempo meu, para ouvir música, olhar ao redor das coisas e das telas, como produtora de marketing e mídias sociais, meu dia era quase que completo em frente as enumeras telas, computador, tablete, celulares e muitas outras tecnologias.

Então caminhar durante uma hora e meia de manhã era meu momento de paz, sossego e relaxante, não era para suar, emagrecer, ser musculosa, ou qualquer outra finalidade da qual, não me sentir calma, relaxada  e com boas energias, tudo estava igual, celular aberto no aplicativo de música, tocando minha banda favorita do momento, o cabelo estava voando no rabo de cavalo, o sol estava entrando pela minha pele e me esquentando por dentro, eu estava bem comigo mesma, organizando em pensamento todas as minhas tarefas para o dia. De repente eu me senti tonta, com falta de ar, e escorei numa árvore que tinha por perto, mas tudo estava escurecendo e ficando distante, então, escorada na árvore fui me abaixando, alguém percebeu que eu não estava bem e se aproximou, mas eu não conseguia ver, nem ouvir direito, lembro que perguntaram meu nome, e eu respondi.

– Meu nome é, Betina.

Não me lembro de mais nada, acordei  em uma cama, macia, lençóis azuis escuros, quarto claro, porém com decoração escura e masculina, aparelhagem de musculação, um pôster de uma banda inglesa, alguém mais cola pôster ainda na parede?  A  resposta sobre o pôster e sobre qualquer outra coisa ficaria para depois quando a porta abriu e por ela passou um homem, alto, forte, desses que a gente olha na rua admira, vira o rosto e vai embora, porque tem a plena convicção de que devem chover mulheres aos pés deles. Esse tipo assim mesmo, tipo lindo.

-Oi Betina, desculpa se te acordei, eu acabei de voltar da rua, fui comprar algo para você comer, acredito que você deva ter desmaiado por estar caminhando com fome. Espero que não fique chateada, você desmaiou no meio da praça, então te trouxe para meu apartamento, moro bem  perto, te trouxe no colo e te coloquei na cama, sai para comprar comida e acabei de voltar. Eu sei que estou falando de mais, não quero parecer um louco ou algo do tipo, também não quero que pense que tentei fazer algo com você ou não sei, enfim, a comida está lá na cozinha, vamos tomar café?

Eu consigo entender o porquê do nervosismo dele, chega ser fofo, todo preocupado, todo atencioso e nem me conhece, espero que ele não tenha  namorada ou estaremos encrencados caso alguém apareça aqui, não porque tenha acontecido algo, porque não aconteceu, mas, até explicar e a outra pessoa conseguia entender, levará um bom tempo, se eu que estou no meio da história ainda não consigo entender bem o que aconteceu.

-Não quis te interromper, mas não desmaiei de fome, se tem algo que eu não consigo é sair de casa sem comer antes, na verdade, quando eu levanto da cama preciso comer urgentemente, ou fico com um mal humor horrível. Não se preocupe, eu não estou com fome agora e estou me sentindo melhor, nem perguntei seu nome ne?! Mas, seja lá qual for, muito obrigada por ter me ajudado e ter me trazido para cá, obrigada também por não ser nenhum louco, e sei lá, ter me matado ou esquartejado, porque sei lá, você poderia ter feito isso. Onde estão meus sapatos e meu celular? Porque você está rindo?

Ele não estava rindo, estava gargalhando em alto e bom som, uma gargalhada tão gostosa de ouvir que foi impossível não rir junto, gargalhamos os dois até as bochechas doerem,  ele sentado perto da mesa e eu em pé, na porta da cozinha, quando controlamos o riso, olhamos um paro outro,  não foi só uma troca de olhares, foi troca de energia, de sentimento, eu consegui ver mais que o rosto lindo dele e sua covinha no maxilar, eu enxerguei dentro dele, e sem saber como, tive a sensação de que conheço ele a anos, consigo sentir como se fossemos amigos desde a infância, me senti em casa, não, não em casa, me senti aconchegada num  lar. Ficamos uns cinco minutos nesta troca de olhares, e então ele se levantou, caminhando muito devagar chegou até a porta onde eu estava e segurou minha mão.

– Somos dois tagarelas, bom, acho compreensivo, estamos nervosos e nem nos apresentamos direito, senta, vamos comer e conversar, você não tem porque correr ou fugir de mim.

Cedi, como poderia não ceder, com aqueles olhos penetrando minha alma, com aquela mão quente segurando minha, com aquela covinha que prendia toda a minha atenção.

“Tudo bem, mas não posso ficar muito, preciso ir trabalhar.” Sentamos um de frente para o outro, o clima ficou tenso como se a conversa estivesse sendo toda desenrolada em nossas cabeças, porém, da boca não se saía som, e o clima foi cada vez ficando mais estranho, mais constrangedor, quando eu estava pensando em me levantar ele começou a falar.

– Caio. Meu nome é Caio, tenho 28 anos, sou solteiro, gosto muito de esporte e sou empresário, trabalho com produção de eventos, organizações de festas, promovo shows, peças de teatro, enfim, tudo que envolva o meio artístico. Sou formado em Administração, tenho alguns cursos técnicos no ramo, moro sozinho desde os 16. Sou do signo de Ares, não que eu entenda algo disso, mas sei que as garotas analisam  esse tipo de coisa, não que eu quero que vocêm analise alguma coisa, só estamos conversando, bem, só eu estou conversando de novo. É que tentei quebrar o silêncio, mas acho que estou falando exageradamente de novo.

-Caio, não se preocupa, isso não é uma entrevista de emprego. E, sobre o lance  do signo, bem eu sou Libriana, mas não tenho a menor noção do que significa, então, vamos pular essa parte.

Ele deu um pequeno sorriso como se desculpasse por falar de mais, e então o silêncio voltou, o clima estranho mais uma vez.

-Não estou procurando funcionários ou assistentes, mas, ao contrário de você que não se importou nenhum pouco com as minhas informações. Eu, eu gostaria muito de  saber sobre você, quem é, o que faz, onde mora, o que gosta de fazer, sabe,  essas informações básicas de redes sociais, que aliás, poderíamos trocar as nossas para que não percamos mais o contato, e sempre que você quiser desmaiar você me avisa e ai eu te busco onde for e te trago para cá.

-Muito engraçado você, mas eu não tenho costume de sair desmaiando por ai, tão pouco acordar em cama de estranhos. Hoje foi a primeira vez que isso aconteceu na verdade.

-Fico feliz em  ouvir isso, espero que a única cama que você acorde seja a minha.

– Me chamo Betina e tenho 24 anos, trabalho com marketing e mídias sociais, meu instagram é @b.almeida, qual outra informação você precisa? Ah! Eu não sou muito fã de esportes, só caminho todo dia de manhã, uma forma que encontrei de não ser tão sedentária, de me afastar durante uma hora ou duas das telas de computadores e celulares. Acho que não tenho mais nada para falar, e eu preciso mesmo ir, tenho uma reunião daqui a pouco e ainda preciso tomar um banho me arrumar. Obrigada pelo café, pelos pães, por ter sido tão atencioso. Até Logo Caio.

E na mesma pressa com a qual eu falava, eu andava em direção à porta de saída, bem, que eu achava que era a de saída, na verdade eu entrei em outro quarto, depois abri a porta do banheiro e quando eu já não tinha mais por aonde ir, finalmente achei a porta de saída, quando passei por ela e olhei para trás para fecha-la vi o Caio me olhando, sorrindo e antes que a porta fechasse totalmente, consegui ver quando ele pegou o celular, antes de eu chegar no elevador, o meu celular apitou. “@caiomarco começou a seguir você.”  Enquanto o elevador descia os seis andares eu aproveitei e chequei meu novo seguidor, o @caiomarco tinha fotos na praia, nas montanhas, fotos na academia, vídeos de exercício, e oito mil seguidores, numa olhada rápida nos seguidores  vi que a maioria eram mulheres, fotos bonitas, filtros, corpo sarado, e muitas fotos em festas, shows e grandes eventos, quanto a isso sei que é trabalho, ou pelo menos boa parte.

Coloquei uma música para tocar, mas eu não conseguia ouvir, porque meus pensamentos estavam muito mais altos do que a música que tocava no meu fone de ouvido. A cada um minuto eu ouvia uma notificação chegando, era bip atrás de bip, mas eu não tinha tempo para olhar, precisava ir para  a reunião, precisava desligar minha cabeça do Caio. Cheguei em casa  corri para o chuveiro, depois enquanto secava meu cabelo, peguei o celular para mandar uma mensagem para a Aline minha secretaria e avisar que estava a caminho do escritório, mais antes de conseguir mandar uma simples mensagem de texto, meus olhos se prenderam nas notificações, quarenta notificações do Caio, de curtidas nas minhas fotos do instagram, quarenta! Porém  eu não tinha tempo para pensar nisso agora, terminei de secar meu cabelo, escolhi minha roupa  e sai para o trabalho, como estava atrasada e não teria tempo de procurar um estacionamento, resolvi chamar um carro pelo aplicativo, em cinco minutos minha carona chegou, quando abri a porta e entrei apressadamente vi que havia um passageiro, e então me dei conta que na pressa chamei um carro  compartilhado  e claro que o destino me fez pegar um carro compartilhado com o Caio.

-Oi Betina, dois encontros no mesmo dia, nossa relação já começou com tudo.

-Oi Caio, isso foi destino ou você está tentando me seguir?

-Destino querida, destino. Não sou do tipo que segue mulheres. Elas é quem me seguem.

-Bom para  você.

Cinco minutos de silêncio e eu checava  a cada dois minutos meu celular para saber quanto tempo mais eu teria de ficar aqui esperando, estava começando a me sentir sem graça, por que cada vez que eu corria meu olho para o lado, encontrava os olhos do Caio me devorando, e só então vi que minha saia estava rasgada, com uma fenda até perto da parte superior da coxa. Droga.

-Você quer parar de olhar por favor?! Está me deixando constrangida.

-Constrangida? O que você está falando? Eu estou olhando para seu rosto, não para suas pernas, aliás eu vi que sua saia estava rasgada quando você entrou, e eu estou olhando só para o seu rosto, porque nunca na minha vida conheci garota mais linda que você.

-Olha, vamos com calma, ou melhor vai com calma, não sei que tipo de garota você está acostumado, mas eu não sou do tipo que corre atrás de homem só porque ele é lindo e gostoso, precisa de muito mais que isso. Precisa ser simpático, humilde, todas as coisas que você deve imaginar que uma garota gosta, sou antiga, bem antiga, tenho 24 anos, mas cabeça de 80. Nem bem 80, porque minha avó tem 80 e é muito mais moderna que eu. Então, não gaste suas cantadas comigo porque elas não vão funcionar.

Olhei para a janela e vi que meu prédio estava a vista, mais dois minutos caminhando e eu estaria lá, perfeito. Eu prefiro ir andando.

-Moço, pode parar o carro aqui que eu vou terminar o trajeto a pé.

-Betina, para de ser louca, está fazendo quase 35oC lá fora. Fique aqui, não vou te incomodar mais.

Senti que ele não falava sério. No entanto estava enganada. Ele realmente não me olhou mais, não abriu mais a boca e quando desci, nem tchau me deu. Mal educado! Sai as pressas para o trabalho, cheguei na empresa com tanta raiva com tanto ódio, que eu nem mesma conseguia entender de onde vinha. Qual o motivo de tanta irritação. Trabalhei como uma louca, dei conta de tanta coisa que nem parecia eu, todo o trabalho atrasado que eu tinha do mês, eu dei conta num dia, o lado bom é que descobri que com raiva eu trabalhava mais e melhor.

Faltava quinze minutos para eu terminar meu expediente, quando de repente o telefone toca.

– Betina, sou eu Aline, você esta namorando? Bom, se não está, acho que vai namorar em breve, amiga, chegou um buque gigante aqui na minha mesa e tem o teu nome no cartão.

Não ouvi o que ela tinha mais para dizer, desci correndo para saber quem tinha feito isso, eu nunca havia ganhado um buque no trabalho, estava toda animada, o buque era lindo, haviam rosas cor de rosas e brancas, misturadas, mais ou menos umas trintas flores, lindas, cheirosas, arrumadas num formato em que os cabos ficassem aparecendo, cabos longos, com um grande laço branco.  Peguei o cartão e me derreti quando li meu nome escrito com letras douradas, abri o cartão e uma letra toda atrapalhada dizia assim “Para a velha de 80 anos, mais linda que eu já vi. Se para te conquistar preciso agir com calma e cautela, eu irei. Mas, eu juro por Deus e o mundo, que nós ainda vamos nos casar. Com todo carinho do mundo. Caio Marco” Eu não sei se eu ria, chorava ou tacava fogo no buque. Resolvi ri. Numa gargalhada tão alta que a Aline se assustou e deu um pulo da cadeira. Eu não tinha o número dele, não sabia o  que aconteceria, só sabia que ele estava indo no caminho certo, eu já amava odiar ele,  era meu pensamento preferido, pensar nele me irritava e me deixava imensamente feliz.  Uma ambiguidade de sentimentos que eu estava amando descobrir, agora, eu estou curiosa para saber o que acontecerá.

Betina & Caio

 

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