Andresa Espindula
Não me ame assim

A magia do Natal…

A magia do Natal…

Faltava mais de uma semana para o Natal, eu já estava no clima, usando somente roupas verdes e vermelhas, como todo ano, quem me conhece sabe bem o quão apaixonada eu sou por esta época do ano. Sem duvida alguma minha época preferida, parece que todas as pessoas ficam mais compreensivas, ficam mais solidárias. Existe uma magia que cerca essa data que me envolve completamente, uma das magias se chama gratidão, não importava como o ano poderia ter sido difícil, nesta época eu sempre me sentia grata. Porque, por mais difícil que tenha sido este último ano, eu sinto que cresci com cada obstáculo, sinto que amadureci e principalmente aprendi muitas coisas, troquei de emprego, de namorado, de amigos, de casa, de rua, cidade e estado. Mudei meu cabelo, fiz novas tatuagens e decidi que era hora de voar.

Mudanças são necessárias, sair da zona de conforto é uma das melhores, se não a melhor, forma de se amadurecer, de descobrir o quão forte nós somos. No começo do ano, sai da casa dos meus pais, uma decisão que no auge dos meus vinte e quatro anos se fazia necessária, achei um apartamento bem legal, na cidade vizinha, junto com o apartamento conheci um vizinho lindo e especial, que trabalhava numa empresa de desenvolvimento web, conversamos por horas no dia em que nos conhecemos, comecei na mesma empresa que ele uma semana depois de nos conhecermos, então, alguns meses se passaram e eu fui promovida, meu chefe perguntou se haveria possibilidades de eu ir morar no estado vizinho para poder trabalhar na filial da empresa, decidi que estava na hora de mexer por completo na minha vida.

Meu namoro andava em aguas mornas, estávamos juntos por comodidade, porque eu já sabia que amor e paixão já não existiam mais, era carinho, amizade e comodismo dos oito anos que passamos juntos, assim que aceitei o emprego, terminei meu namoro com o Leonardo, contei para meus pais das mudanças e do rompimento do meu relacionamento, no começo eles ficaram meio assustados, logo depois ficaram bravos e no fim aceitaram que não tinha mais solução, quando eu contei para eles que o Leonardo não se importou nenhum pouco com o fim do relacionamento, pelo contrario parecia até feliz, como se ele estivesse querendo fazer isso a alguns dias e não tivesse coragem.

Quinze dias depois cheguei ao meu novo estado, minha nova cidade era linda, colorida e bem localizada, uma cidade nem pequena nem grande, perfeita para novas descobertas e novos amigos, comecei a trabalhar na SISTEC e no mesmo dia já conheci a Gabriela, uma menina inteligente e muito simpática, ficamos amigas muito rápido, saímos a semana toda, ela me mostrou vários lugares e barzinhos, no final de semana fomos a praia, e fizemos trilhas, e assim os dias foram se passando.

Há uma semana do Natal, eu não conseguia controlar minha empolgação para conhecer as decorações natalinas famosas das cidades vizinhas. Meu apartamento estava totalmente decorado, eu havia colocado pisca-piscas pelo lado de fora da janela, numa missão completamente arriscada, porem, o resultado estava maravilhoso.

“Não acredito no que meus olhos estão vendo Marina, que lindo que seu apartamento está, é a decoração de natal mais linda que eu já vi. Me sinto dentro de um filme natalino, daqueles da Netflix.” – Gabriela era só sorrisos dentro do meu apartamento, esses sorrisos aumentavam meu amor pelo Natal.

Estávamos prontas para dirigir até a cidade vizinha, estávamos animadas e com uma sensação de que seria uma experiência incrível.

“Acho melhor a gente pegar um Uber, caso a gente beba, uma, duas tacinhas de vinho, não quero correr o risco. O que você acha Ma?” – Assim que a Gabi terminou a frase caímos na gargalhada, primeiro porque não bebíamos vinho, nós amávamos uma boa cerveja, segundo porque quando decidíamos beber, eram garrafas e garrafas.

“Concordo com você. Vou chamar o Uber” – Abri o aplicativo e coloquei as informações, simples e fácil, em quinze minutos nosso Uber estaria ali.

“Tudo certo, Ma?” – Gabi estava realmente muito empolgada, eu amava minha amiga, sem duvida alguma ela era a pessoa mais especial para mim nesta cidade.

“Tudo sim Gabi, nosso motorista chega em quinze minutos, se chama Pedro e está dirigindo um belo Cruze preto. Vamos descendo, porque estou muito ansiosa, mal posso esperar para conhecer toda a magia da cidade vizinha.” – Havíamos programado todo o nosso passeio, desde a museus, restaurantes, praças e parques, seriam dois dias fantásticos.

“Você esta linda amiga, seus olhos estão brilhando, eu entendo que você goste muito de Natal, Marina, eu também amo, mas, não sei, seu olhar está brilhando demais, como se estivesse esperando algo deste Natal.” – A Gabi, estava certa, eu estava esperando mais. Não sei o que há mais, não entendo ainda, porém, eu sei que estava esperado alguma coisa.

Descemos para esperar o Uber, chequei o app e o motorista havia mandado uma mensagem dizendo que chegaria em menos tempo, porque alguém havia cancelado uma corrida. O Cruze chegou e eu nem sabia que carro era aquele, mas achei lindo. Ainda mais lindo foi o motorista que desceu todo galanteador para nos ajudar com as mochilas, colocou as mochilas no porta mala e todo sorridente nos deu oi e um boa noite, depois dessas frases eu sabia que minha noite seria boa. Muito boa.

“Vocês estão indo para a cidade vizinha, dei uma olhada aqui no GPS e o trajeto todo durará mais ou menos uma hora, muita gente está indo ver as decorações este ano, então vamos pegar um pouco de transito.” – Ele falava olhando as vezes pelo retrovisor e sorrindo educadamente e a cada sorriso meu coração pulava um pouquinho mais.

Conversa vai e vem, e descobrimos varias coisas sobre o Pedro, ele era motorista para ajudar na renda da família, mas ele era estudante de Veterinária, e ainda morava com os pais, concidentemente morava na cidade que estávamos indo visitar, falamos que iriamos ficar dois dias e ele se ofereceu para passear com a gente no dia seguinte, sem ser como motorista do Uber, mas, como morador da cidade, ele disse que conhecia lugares maravilhosos e escondidos, lugares que estariam mais vazios agora e que são tão lindos quantos os lugares mais visitados. Claro que aceitamos a ajuda e até oferecemos uma quantia simbólica para ele, como se pagássemos por um guia, mas ele disse que não aceitaria, que iria fazer esse grande sacrifício de levar duas garotas lindas para passear pela cidade.

A conversa entre a gente fluía e pela vibe nós sabíamos que o dia seguinte seria maravilhoso, trocamos nossos contatos para que no próximo dia conseguíssemos nos localizar. O Pedro nos deixou no nosso hotel e continuou trabalhando. Eu e a Gabi decidimos tomar uma cerveja no barzinho perto do hotel, trocamos de roupa e descemos, o barzinho era lindo e me lembrava muito a Irlanda, por fora parecia ser um bar pequeno e aconchegante, por dentro, uma grande surpresa, era um espaço enorme, muito bem decorado com quadros e folhagens, havia quadros com fotos de lugares conhecidos da Irlanda, como o bar The Temple Bar, havia fotos das catedrais como a catedral de St. Patrick’s e claro havia um cardápio maravilhoso com as melhores cervejas nacionais e internacionais.

Não precisava conhecer muito a Gabriela, para saber que nós faríamos uma rodada para experimentar todas as cervejas internacionais mais pedidas na Irlanda. Fizemos nosso pedido e em poucos minutos a atendente nos trouxe uma régua de degustação de cerveja, junto com as porções de fritas que pedimos. Estávamos comendo, bebendo e degustando com muito gosto cada cerveja que compunha a famosa régua de degustação.

“Não acredito que vou ter que esperar mais oito horas para ver o Pedro de novo.” – Ele era muito lindo e minhas retinas precisavam ver aquela maravilha de novo. Assim que terminei a frase, no meio de uma conversa sobre chefes e seus egos, a Gabriela começou a rir.

“Mah, acho que já sei qual será seu pedido para o Papai Noel. “Querido Papai Noel, este ano fui uma boa garota, e gostaria de pedir o Pedro, motorista do Uber, estudante do ultimo semestre de Veterinária, o Senhor pode me envia-lo sem roupa para evitar meu trabalho de ter que despi-lo. Com amor, Marina Merim” – Ouvi a imitação nada parecida da minha voz que a Gabi fez, e caímos aos risos, olhei para nossa mesa e vi que já havíamos tomado nada menos que cinco réguas com oito copos em cada uma, nem somar para saber ao todo quantos copos havíamos tomado eu consegui.

Fato, era hora de voltar para o hotel.

“Gabi, amanhã a gente precisa levantar cedo,  Pedro disse que vem buscar a gente as 6 da manhã para ver o sol logo que ele nasce lá na cachoeira e depois a gente volta para a cidade, para começar a ver as decorações natalinas. Ele disse que tem uma vila…” – Fui interrompida com uma risada histérica da Gabriela.

“Amiga, eu estava no carro, eu ouvi tudo, para te corrigir não é amanhã, é daqui a pouco, se você ainda não notou já são 4 horas da manhã.” – Olhei em volta e o bar continuava igual, cheio de pessoas rindo, conversando, bebendo, perdi totalmente a noção do tempo. Tirei o dinheiro da bolsa, aquilo deveria ser o suficiente para pagar a conta da noite, peguei a Gabi pela mão e saímos correndo do restaurante, eu não poderia ver o Pedro dormindo somente algumas horinhas, eu precisava de uma noite de sono ou daqui algumas horas eu ia estar parecendo um zumbi daqueles do The Walking Dead.

Estávamos indo em direção a porta do bar, rindo, cambaleando e conversando sobre o quão animada eu estava para rever o Pedro, no momento em que empurrei a porta do bar, notei que a porta foi puxada com tamanha força, eu que já não estava totalmente sobrea, acabei perdendo o controle e cai em cima da pessoa que estava abrindo a porta, senti a mão da Gabi me puxando e rindo como uma hiena descontrolada. Estava com os pedidos de desculpa na boca quando olhei para o rosto de quem havia amortecido minha queda.

Sim. O Pedro. Ali. No bar. Lindo. Pedro. Eu bêbada. Maquiagem borrada. Tragédia. Beijo. Quero.

“Você sai caindo por cima de todas as pessoas assim sempre, ou isso é alguma forma de dizer oi que eu não estou sabendo?” Ele estava escorado nos cotovelos, com um sorriso lindo na cara, parei para organizar meus pensamentos e percebi que ainda estava em cima do Pedro, não consigo imaginar a cena que a Gabi estava vendo, o Pedro no chão, eu em cima, na porta de um barzinho praticamente as 5 da madrugada.

“Meu Deus, me desculpe, eu estava empolgada conversando com a Gabi e me descontrolei quando você puxou a porta, me desculpa realmente.” – Eu estava me levantando e a vontade que eu sentia era de sair correndo de tamanha vergonha.

“Pelo cheiro de cerveja, acredito que não foi só a empolgação pela conversa que te desequilibrou. Que bom que estão aqui já, eu acabei de terminar meu trabalho e como marquei as seis com vocês decidi esperar aqui até as 6 horas, mas já que estão aqui, podemos ir direto, vamos pegar o sol ainda saindo.” – Ele não tinha acabo o trabalho agora, porque estava com outra roupa e cheirava a espumante de barbear. Olhei para Gabi que também pensava o mesmo.

“Pedro, não mente, você foi em casa primeiro, está com cara de quem acabou de sair do banho, cheirando a sabonete.” -Gabi era sempre direta.

“Droga, realmente fui primeiro em casa, achei que eu se dissesse que tinha ido em casa primeiro, vocês também iriam querer ir no hotel primeiro, tomar um banho e se arrumar para gente sair só depois, e realmente acho que seria uma ideia maravilhosa a gente sair agora.”

“Cara, olha como a gente está, um banho primeiro e em cinco minutos a gente desce. Sério, toma um café, tem café aqui no bar? Bom, não sei. Marca aí, cinco minutos e a gente está de volta, vamos Ma.” – A voz da Gabi ainda estava entrando na minha mente e quando minha voz começou a sair, num jato rápido de informações.

“Se tem café aqui eu não sei, mas no hotel tem um ótimo serviço de quarto e você podia subir com a gente e esperar no quarto comendo e bebendo café, enquanto a gente se arruma, cinco munutinhos…” – Senti os olhos da Gabi me engolindo e para a minha surpresa o Pedro aceitou, saímos caminhando em direção ao hotel, chegamos na recepção e decidimos que subir de escada seria mais divertido, depois mudamos de ideia e pegamos o elevador, quando estávamos dentro do elevador conversando sobre meu amor inexplicável pelo Natal, o Pedro olhou para cima e começou a sorrir, neste momento acompanhei os olhares dele e vi que estávamos embaixo de um visco. Vi a Gabriela dando um passo para o lado, para que ficássemos somente eu e o Pedro embaixo do visco. Tomada por uma onde de coragem natalina, fiquei na ponta do pé, puxei a cabeça do Pedro e dei um selinho nele.

“Tradição.” – Disse depois do selinho, levantando os ombros como uma desculpa, foi surpreendida mais uma vez, ele me abraçou pela cintura e me deu um beijo de verdade, daqueles que as princesas levantam a perna e jogam a cabeça para trás.

“A tradição diz que tem que o casal que estiver embaixo de um visco precisam se beijar, não dar um selinho morno.  Se você quer seguir a tradição, precisa seguir à risca.” – Ele me deu uma piscadinha e fez com que as minhas pernas tremessem. Sorri para ele e virei o pescoço para ver a Gabi soletrar com a boca “TO CHO-CA-DA”

Realmente nos arrumamos em cinco minutos, nosso quarto tinha uma divisória bem legal, ficava a cama de um lado, tinha uma divisória com mesinha de escritório e cadeira, TV, frigobar, e outra divisória para o banheiro. Revezamos o banho e a troca de roupa dentro do banheiro para não sair enrolada na toalha na frente do Pedro, bem que eu queria, mas a Gabi achou melhor não. Saímos do banheiro pós banho, e o Pedro estava na cadeira, virado para a parede.

“Estou virado para a parede e de olhos fechados, caso alguma de voz esteja sem roupa. Prometo que não vou olhar.” – Caímos na risada.

“Pedro seu bobo, estamos prontas já, pode virar e abrir os olhos.” – Ele virou, olhou para nós, sorriu e se levantou. Eu estava virando em direção a porta quando senti a mão dele pegando a minha.

“Eu sei que pode ser precipitado, mas queria te convidar para ficar na minha casa até a véspera do Natal, queria ficar um pouco mais com você e te conhecer melhor, claro que sua amiga pode ficar com a gente também, afinal, ainda moro com meus pais, e antes que você diga não e use o fato de eu morar com meus pais como empecilho, saiba que eles são bem tranquilos e não se importariam, além disso tenho uma irmã, vocês podem fica no quarto dela.” – Ao mesmo tempo em que falava, suas mãos passavam pelos cabelos, demonstrando nervosismo, era engraçado como eu também me sentia inquieta perto dele, era delicioso o que eu sentia quando ele estava perto, e por mais ridículo que seja dizer isso e precipitado, eu sentia saudades dele quando não estávamos perto, até mesmo enquanto eu estava tomando banho, sabia que ele estava no outro cômodo e isso me deixava inquieta e querendo correr para ele.

“Olha, eu acho bem precipitado sabe, mas quem decide é a Marina, de forma alguma eu vou deixá-la ir sozinha.”  Gabi sendo Gabi.

“Eu topo. Quero te conhecer melhor, quero conhecer tudo que vem de você. Mesmo achando isso uma completa precipitação.” – Terminei de falar e sorri para ele, que retribuiu o sorriso, lindo, calmo e doce. Em momento algum, o Pedro soltou minha mão, e depois desta conversa, continuamos de mãos dadas, descemos as escadas, passeamos pela cidade, pela cachoeira, pelos rios e mares, seja onde fosse, nossas mãos não se soltavam, estavam firmes e tinham um encaixe perfeito.

Os dias se passaram, conheci a família do Pedro e me apaixonei por eles, eram acolhedores e muito simpáticos. A cada dia que passava eu estava ainda mais apaixonada pelo Pedro e sentia o mesmo dele por mim, estávamos unidos fisicamente e emocionalmente, era recíproco, era verdadeiro e estava sendo mágico. Na minha época do ano favorita, eu tinha encontrado uma pessoa especial e mágica que combinou comigo e com a magia do Natal. Passamos a véspera do Natal na casa do Pedro com a Gabi e com toda a família dele, depois decidimos ir para minha cidade natal e passamos o dia vinte e cinco com a minha família toda. Minha mãe se apaixonou pelo Pedro e estava fazendo vários planos de viagem para que ele conhecesse toda a família.

Foi inesquecível, agora eu tinha um motivo a mais para amar dezembro e sua magia. Minha razão se chamava Pedro. Decidimos fazer de dezembro o nosso mês, três anos depois do nosso primeiro Natal juntos, decidimos casar, claro que nossa data foi dia vinte e quatro de dezembro, com direito a decoração especial de Natal, tudo em vermelho, branco, dourado e muita magia. Foi lindo e abençoado. Somos felizes e completos. Depois que conheci o Pedro, todos os anos meu pedido de Natal era sempre o mesmo, que todas as pessoas no mundo acreditassem na magia do Natal e que fossem felizes como eu era.

Marina & Pedro

 

2 comentários

  1. Magda Souza disse:

    Lindo!!!
    Queria muito me sentir assim no Natal,mas ao contrário o Natal pra mim assim como o ano novo sempre foi motivo de muita tristeza.
    Nunca entendi o motivo,já que tenho tudo e um filho lindo e amável educado o filho do sonho de toda mãe.
    Mas é assim que eu me sinto como uma folha de árvore morta que cai no chão ao chegar o outono.

    • Andresa Espindula disse:

      Talvez, seria interessante você tentar enxergar o Natal com outros olhos, abrir o coração e a mente. Eu sempre pergunto para as mães, quem elas são além de mães. Como mulher, quem é você? Do que você gosta? Que tipo de comida prefere? Não é egoísmo tirar um tempo só para você. Deixar o filho com a avó, com a madrinha, prima, amiga, e tirar algumas horas para você, para se descobrir… Talvez o brilho do Natal esteja por ai, esperando você descobri-lo.

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